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“Vende o teu apartamento e transfere-me o dinheiro. Assim seria o correto”, insistia a sua sogra, mas a Dária fez-lhe apenas uma pergunta.

by ptimpress1303
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«Venda o seu apartamento e transfira-me o dinheiro. Seria o mais justo», exigiu a sogra, mas Dária fez-lhe apenas uma pergunta.

Dária ajeitou a almofada do sofá e sentou-se confortavelmente ao lado de Sergei. Era uma noite tranquila — daquelas que ambos mais apreciavam.

No pequeno estúdio deles reinava uma atmosfera quente e acolhedora. A luz suave do candeeiro no canto espalhava um brilho agradável, enquanto lá fora as luzes da cidade tremeluziam na escuridão.  Sergei navegava no telemóvel e, de vez em quando, ria-se, mostrando a Dária imagens e vídeos engraçados.

— Olha para este cão! — disse ele, entregando-lhe o telefone. — É igualzinho ao vizinho do terceiro andar.

Dária riu.

— Verdade. Até tem a mesma expressão carrancuda.

Estavam casados há cinco anos e ainda desfrutavam das pequenas alegrias da vida. O apartamento era pequeno: a cozinha mal tinha espaço para duas cadeiras e o armário do corredor era mais velho do que eles próprios juntos. E, ainda assim — era o lar deles.

O telemóvel de Dária vibrou na mesa.

— Caiu a renda — disse ela, olhando para o ecrã. — Como sempre, a tempo.

— Ótimo — respondeu Sergei. — Gosto cada vez mais destes inquilinos.

— Eu também. Em dois anos nunca tivemos problemas.

O apartamento que alugavam pertencia a Dária, comprado pela sua mãe após muitos anos de poupança, quando ela ainda era estudante.

— Nunca vou esquecer o dia em que ela me deu as chaves — disse ela baixinho.

— Eu sei — sorriu Sergei. — Já contaste isso pelo menos dez vezes.

— Porque foi um dos dias mais importantes da minha vida.

As chaves, as lágrimas da mãe e as suas palavras:

“Não sei o que a vida te reserva, mas que tenhas sempre um lugar para onde voltar.”

Aquele apartamento não era apenas um imóvel. Era segurança. De repente, a campainha tocou.

— Quem virá a esta hora? — perguntou Dária.

Sergei abriu a porta. Alguns segundos depois, ouviu-se uma voz familiar no corredor:

— Sergei, ajuda-me com a mala.

Valentina, a sogra.  Entrou com confiança e sentou-se à mesa.

— Precisamos de falar seriamente — começou ela.

Disse que queria comprar um terreno fora da cidade.

— Só preciso de dinheiro — acrescentou.

E então disse a frase:

— Vende o teu apartamento.

Silêncio.

— O quê? — perguntou Dária.

— Vende-o. Não precisas dele.

— Está alugado.

— Ainda melhor. Tem mais valor assim.

— E depois?

— Depois transfere-me o dinheiro. Seria o mais justo.

Sergei franziu o sobrolho.

— Mãe…

Mas Valentina continuou:

— Eu também sou família. Tudo o que faço é por vocês.  Dária mal podia acreditar no que ouvia.

— Estás a falar a sério?

— Sim.

— Queres que eu venda o apartamento que a minha mãe me comprou?

— Não exageres. É só um apartamento.

Dária olhou-a calmamente.

— Se a minha mãe precisasse de dinheiro, venderias a tua casa e enviarias as tuas poupanças?

Valentina ficou em silêncio.

— Não é a mesma coisa…

— Porquê não?

A pergunta ficou suspensa no ar.

— Porque… — começou ela, mas não terminou.

— Porque? — repetiu Dária.

O silêncio tornou-se pesado.  Sergei baixou o olhar. Valentina acabou por se levantar.

— Então não temos mais nada a dizer.

E foi-se embora.

Quando a porta se fechou, o apartamento voltou ao silêncio.

— Desculpa — disse Sergei.

— Não tens de pedir desculpa pelas decisões dos outros — respondeu Dária.

Abraçou-o.

Dária olhou pela janela. As luzes da cidade continuavam a piscar. E lembrou-se do dia em que recebeu as chaves. Aquele apartamento não eram apenas paredes.

Era liberdade.

E ela estava pronta para a proteger.

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