Início » Por um instante, tudo parou, como se o tempo tivesse perdido a força. Eu sentia os músculos do pescoço dele se tensionando, a raiva tremendo nos dedos, misturada com medo. Minhas próprias mãos estavam calmas — e era exatamente isso que mais o assustava.

Por um instante, tudo parou, como se o tempo tivesse perdido a força. Eu sentia os músculos do pescoço dele se tensionando, a raiva tremendo nos dedos, misturada com medo. Minhas próprias mãos estavam calmas — e era exatamente isso que mais o assustava.

by ptimpress1303
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— Sabe, Tomás — disse baixinho, quase com ternura —, você estava certo quando disse que conseguiríamos. Só não especificou quem de nós exatamente.  Deixei o copo na mesa. O estalo do vinho se espalhando soou como um tiro. Alguns convidados trocaram olhares confusos.

— O que ela quer dizer? — ouviu-se de algum lugar.

Mas eu já me dirigia a eles.

— Estranho, não é? Sempre me ensinaram a agradecer ao destino. Pois bem — obrigada — por cada noite passada entre os números do seu negócio, por cada centavo que investi, e por cada assinatura em documentos. Especialmente aquela que me deu direito de administrar parte da empresa.

Mariana arqueou as sobrancelhas.

— Que documentos? Você nem sabe do que está falando.

— Pelo contrário, sei — respondi calmamente. — Vocês achavam que o advogado trabalhava só para vocês. Mas não exatamente. E eu sei escolher aliados.

Principalmente quando se trata daquilo que me pertence.

O silêncio tornou-se insuportável. Tomás empalideceu. Seus lábios tremeram.

— Você… quer dizer que… —

— Sim, Tomás. Metade da empresa está registrada em meu nome. Qualquer banco pode confirmar. E se, querido, você tanto deseja liberdade do “fardo” — fiz uma pausa — então eu terei o prazer de libertá-lo do seu próprio.

Mariana agarrou os braços da cadeira.

— Isso é chantagem! — sua voz tremia como uma corda.

— Não — disse tão calmamente que o horror percorreu a sala — apenas uma conta. Aquela que você, Mariana, me ensinou a pagar.   Dei um passo atrás e tirei o anel. O metal brilhou à luz do lustre de cristal e caiu tilintando no meu copo.

— Feliz aniversário — sussurrei para mim mesma e me virei para a porta.

Atrás de mim ouvi suspiros contidos, murmúrios.

Tomás gritou algo, mas eu não me virei. Ninguém ousou me impedir.

Lá fora, o ar estava úmido e fresco, coberto pela neblina da noite. Não toquei no carro que me deram dois anos antes — apenas fui a pé, descalça, segurando um pequeno envelope. Dentro estavam os documentos, preparados previamente pelo advogado. Esse aliado em quem confiei mais do que nele algum dia.

Caminhando, pensei que talvez pela primeira vez em anos sentisse o ar realmente enchendo meus pulmões. Cada gota de chuva na pele era a prova de que a vida ainda era minha.

Uma semana depois, a casa deles voltou a receber a “boa sociedade”. Mas desta vez as conversas eram diferentes: como Tomás havia vendido parte do negócio e partido, e Mariana havia adoecido de vergonha. Ninguém descobriria que fui eu quem lançou a primeira pedra.

Mas os rumores… fariam o trabalho por mim. Voltei à cidade da minha infância, aluguei um pequeno apartamento acima de uma floricultura e abri meu próprio estúdio — decoração e organização de festas privadas. A ironia era fina: aquela que humilhavam com brindes, agora criava festas para os outros.

Às vezes, via Tomás na TV. Seu olhar estava vazio — como alguém que perdeu mais do que dinheiro. E eu percebia que talvez esse fosse meu verdadeiro presente — não a vingança, mas a liberdade que sempre me pertenceu.

Quando me olhava no espelho — sem o vestido esmeralda, sem a máscara de esposa social — pela primeira vez não sentia culpa. Apenas paz. E uma leve, quase imperceptível sensação de satisfação por perceber que até as leoas mais ferozes, um dia, encontram alguém que sabe sorrir no momento do golpe. E eu — aprendi a sorrir muito bem.

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