— Marina, ainda não arrumaste as tuas coisas? — perguntou a minha sogra, com um entusiasmo que mal conseguia esconder.
— Hoje, segundo o calendário religioso, é o dia da purificação de tudo o que é inútil.
— Parece-me uma excelente oportunidade para, finalmente, libertares o apartamento.
Marina, com o telefone entre o ombro e a bochecha, continuava calmamente a cortar abacate para o pequeno-almoço. Na voz de Eleonora Arkadievna havia um triunfo evidente, como se a vitória já estivesse a ser celebrada.
— Bom dia, mãe, — respondeu Marina com calma.
— De que “coisa inútil” está a falar?
— Dos depósitos de calcário na chaleira ou de mim?
— Não sejas insolente! — bufou a sogra.
— Não vês o quanto o meu Pašenka sofre?
— Ontem ele passou por minha casa para comer piroshki. Estava tão infeliz, como um cachorrinho ferido.
— Tu, com os teus projetos, a tua carreira e esses… como é que lhes chamas… smoothies, destruíste completamente a vida dele.
— Divorciem-se já!
— O meu filho merece uma mulher verdadeira, que não saiba apenas trabalhar, mas também construir uma família.
Marina congelou.
Lá fora, da janela do 13.º andar, as nuvens de outono moviam-se lentamente no céu.
Cinco anos. Cinco anos a ouvir aquelas palavras mais vezes do que um simples “Como estás?”. No início magoava-a, depois irritava-a, agora só lhe causava cansaço.
— Sabe de uma coisa, Eleonora Arkadievna? — disse Marina com um leve sorriso. — Talvez tenha razão.
— Está na altura de acabar com este teatro.
— Está a falar a sério? — perguntou a sogra, surpreendida.
— Mais a sério do que nunca.
— Tenha um pouco de paciência.
— Dentro de uma semana tudo estará resolvido.
— Finalmente! — exclamou a mulher, radiante.
— Eu mesma vou dar a boa notícia ao Paša.
— Não é necessário, mãe.
— Vai ser uma surpresa.
Depois de desligar, Marina pousou o telefone na mesa.
Nesse momento, Pavel entrou na cozinha. Usava uma t-shirt larga, parecia sonolento e tinha a mesma expressão triste pela qual a mãe dele se preocupava sempre.
Não era um homem mau.
Apenas demasiado fraco de carácter. Em cinco anos de casamento, nunca tinha conseguido enfrentar a mãe.
— A minha mãe voltou a ligar? — perguntou ele, olhando para o frigorífico.
— Sim.
— Estava a perguntar quando tencionas libertar-te da minha presença, — respondeu Marina calmamente. Pavel tirou um frasco de conservas trazido pela mãe, sem sequer olhar para o pequeno-almoço preparado pela esposa.
— Tu conheces-a.
— Ela só se preocupa.
— Tem o coração fraco.
“Coração fraco? Os nervos dela são de aço”, pensou Marina.
Mas disse em voz alta:
— Paša, o que é que tu queres realmente?
— Não estás cansado de viver como se estivéssemos sempre prestes a divorciar-nos?
Pavel encolheu os ombros.
— Está tudo bem.
— Temos casa, trabalho, o carro é partilhado.
— A minha mãe resmunga de vez em quando. E então?
— Porque é que lhe dás importância?
Marina já não sentia amargura. Sentia apenas o desgosto de, aos 32 anos, a sua vida girar em torno das exigências dos outros e não do trabalho que amava no escritório de arquitetura.
A semana seguinte passou surpreendentemente calma. Ela deixou de discutir, deixou de explicar o óbvio e deixou de atender as chamadas da sogra.
Em vez disso, começou a agir. Enquanto Pavel estava no trabalho, Marina encontrou-se com um advogado — jovem, mas muito experiente, que sabia exatamente como lidar com casos em que uma das partes se achava intocável.
— Então, — disse ele, examinando os documentos.
— O apartamento foi comprado antes do casamento e é propriedade sua.
— Aqui é simples.
— Resta o carro, as poupanças e a casa de campo.
— A casa está em nome da minha sogra, — explicou Marina, colocando os papéis na mesa.
— Mas foi construída com o meu dinheiro.
— Tenho todas as provas.
O advogado sorriu satisfeito.
— Excelente.
— Isto significa que não vamos apenas divorciar-nos, mas também pedir a parte que lhe pertence legalmente.
À noite, Marina separou as suas coisas.
A caneca antiga e rachada que Pavel adorava.
As fotografias dos tempos felizes.
Colocou tudo numa caixa com a palavra: “Passado”.
Sem raiva.

Apenas encerrando um capítulo. Na sexta-feira, Eleonora Arkadievna convidou-os para jantar.
Estava radiante, como se já estivesse a celebrar a vitória.
— Come, Pašenka, — disse ela.
— Os piroshki caseiros são melhores do que as porcarias de loja com que a Marina te alimenta.
— Agora começa a verdadeira vida.
Marina tomou o chá com calma.
— Tem razão, Eleonora Arkadievna.
— A vida realmente está a mudar.
— E preparei todos os documentos.
A sogra iluminou-se.
— Finalmente!
— Dá-me isso, eu própria vou verificar.
Marina colocou uma pasta grossa na mesa.
Na capa estava escrito:
“Pedido de divórcio e partilha de bens comuns”.
Pavel engasgou-se com o chá.
Eleonora Arkadievna empalideceu.
— O que é isto?
— Que partilha?
— É muito simples, — respondeu Marina calmamente.
— O apartamento é meu.
— Mas a casa de campo, em seu nome, foi construída com o meu dinheiro.
— Tenho todos os comprovativos.
— Isto é roubo! — gritou a sogra.
— Paša, diz alguma coisa!
Mas Pavel apenas olhava confuso para os documentos.
— Marina… a minha mãe só se queixava…
— Não, Paša.
— Ela mandava. Tu obedecias.
— E eu paguei o espetáculo durante todo este tempo.
— Chega.
Quando saiu da casa da sogra, Marina sentiu pela primeira vez em anos um alívio enorme. Como se tivesse finalmente tirado sapatos apertados depois de muito tempo.
O telefone tocou.
“Mãe do Paša”.
Ela bloqueou o número.
Uma semana depois, Pavel saiu de casa definitivamente.
Levou três malas e a sua caneca preferida.
Sem escândalos.
Apenas perdido.
— Foi isto que querias? — perguntou ele.
— Não, Paša.
— Eu queria um marido.
— Mas tive sempre apenas o filho da mãe dele.
E assim, finalmente, começou a sua liberdade.