A nossa festa de inauguração parecia uma coroação. Minha sogra, Svetlana Petrovna, entrou no nosso novo apartamento de dois quartos como uma inspetora fiscal – com majestade e com a clara intenção de testar minha paciência.
Atrás dela estava meu marido Ilja, com a expressão feliz de um cocker, e fechando a procissão estavam minha cunhada Julia e seu marido Wiacia. Wiacia carregava uma caixa com a mesma delicadeza com que se manusearia uma relíquia, não um eletrodoméstico.
— Por favor! — disse Svetlana Petrovna, apontando para a mesa — Isto é para vocês, para que possam eternizar cada momento da felicidade familiar!
Dentro da caixa havia uma câmera. Não uma simples compacta, mas uma reflex profissional, com preço equivalente à asa de um pequeno avião. Eu e Ilja trocamos olhares: era um presente surpreendentemente generoso. Normalmente, os presentes de familiares se limitavam a conjuntos de toalhas desbotadas ou tigelas com design pré-histórico.
— Obrigado, mãe — disse Ilja emocionado — É realmente… oh!
— Usem à vontade — acrescentou Vitya em tom autoritário, ajustando a gravata como se fosse uma hipoteca — Combinamos eu, Yulechka e a mãe. É equipamento sério, japonês. Não aperte os botões errados, não toque na lente com os dedos.
Durante um mês vivemos em um idílio. Eu aprendia a usar a câmera, fotografando o gato (que saía perfeito), e Ilja estava orgulhoso. Então, chegou uma ligação.

Era Yulia. Sua voz era tão doce que quase senti açúcar nos meus tímpanos.
— Olejka, oi! Escuta, temos uma coisa… Mischa tem a apresentação matinal na creche. Papel de Cogumelo Porcini. É uma lembrança para a vida toda! Você pode me emprestar a câmera por um dia? Wiacia vai tirar as fotos e devolvê-la à noite.
Dentro de mim algo se contraiu. Minha intuição, velha e experiente, começou a alertar. Mas Ilja, ouvindo o pedido, imediatamente se comoveu:
— Claro! É meu sobrinho! O que eles querem, gravar o Cogumelo Porcini no celular? Isso não é sério.
A câmera foi levada pelos parentes. À noite não foi devolvida. Nem depois de uma semana.
Quando liguei para Wiacia, ele respondeu com tom de diretor distraído:
— Olia, você não entende. São arquivos RAW. Pesam como uma ponte de ferro. Meu computador antigo processa devagar. É preciso converter, ajustar cores… Estou só tentando que fiquem bonitas!
— Wiacia — disse calmamente, mexendo a sopa — é a apresentação matinal da creche, não um ensaio fotográfico para revista. Coloque a câmera de lado, eu mesma cuido disso.
— Olia, você é superficial como um medidor de água — rebateu ele — Aqui é necessário um enfoque profundo. Espere.
Ele desligou. Olhei para Ilja, que abaixou a cabeça sobre o prato tentando passar despercebido.
— Bem, ele só quer fazer o melhor — murmurou meu marido. Um mês depois, minhas tentativas de recuperar a câmera esbarravam em um muro de absurdos. Primeiro “o Windows caiu”, depois “o espaço no disco acabou”, e toda a família dizia que estava economizando para um disco externo.
— Wiacia — disse durante outra visita, quando chegaram sem a câmera, mas com biscoitos — Me diga a verdade, você redesenha os pixels à mão?
Wiacia se inflou como um peru no Dia de Ação de Graças e, depois de um gole de chá, disse solenemente:
— Olia, você é humanista. Não consegue compreender a complexidade da vida digital. O buffer de troca está cheio de caching de metadados. É preciso delicadeza.
— Wiacia — sorri como uma enfermeira para um paciente inquieto — O buffer de troca se limpa reiniciando, e o cache não é onde você esconde suas economias de Julia. Não confunda os termos, senão o processador vai superaquecer.
Wiacia tossiu, corou e admitiu:
— Você é má. Não deixa a criatividade se expressar.
Como se a “criatividade” dele fosse mais que fotos borradas de uma criança vestida de cogumelo.
O desfecho chegou de repente. Após mais uma solicitação de devolução, Svetlana Petrovna, que até então permanecia neutra, passou para o ataque:
— Olia, quanto mais isso vai durar?! — protestou ao telefone — Nós devolvemos a câmera há duas semanas! Quando viemos pegar os documentos do banco!
Fiquei sem palavras.
— Svetlana Petrovna, vocês não trouxeram nada.
— Ilja! — gritou a sogra — Sua esposa é mesmo… Você esqueceu? Colocamos na bolsa! Aquela azul! Olia, beba glicerina, sua memória é de guppy!
Ilja piscou confuso.
— Ol, talvez seja verdade? Talvez eu a tenha colocado em algum lugar e esquecido?
Eles me manipularam profissionalmente, falando em uníssono. Julia confirmou que viu Wiacia colocar o pacote no corredor. Wiacia, com cara de aristocrata ofendido, sustentava que sua honestidade era cristalina. Revirei o apartamento inteiro. Nenhum pacote. Nenhuma câmera. Só a sensação de estarem me tratando como idiota. E essa sensação me irritou profundamente.
A solução veio de um lado inesperado. Eu procurava um umidificador no Avito (a estação seca estava ressecando minha pele) e então… apareceu nas recomendações:
“Vendo reflex. Estado perfeito, usada poucas vezes. Urgente. Preço negociável.” Na foto estava nossa câmera. Não a reconheci pelo número de série, mas pela alça — eu havia colocado um chaveiro em forma de pata de gato, que na foto alguém tentava timidamente cobrir com o dedo. Mas, sobretudo, o fundo: a câmera estava no tapete, o mesmo lendário tapete com cervos.
Uma raiva fria me tomou. Não quente, como quando se quer quebrar pratos, mas aquela calma glacial de um atirador ajustando a mira considerando o vento.
— Ilja, vem aqui — chamei meu marido.
Ele se aproximou e olhou para a tela.
— Oh, igual à que tínhamos…
— Ilja, olha o chaveiro. E o cervo. Vê que os chifres estão quebrados? Quem queimou os chifres com um cigarro no Ano Novo de 2018?
Ilja empalideceu. O quebra-cabeça em sua mente se encaixou com um estalo. Sua família não apenas pegou o presente: me acusaram de perdê-lo para poder vendê-lo.
— Vou ligar para a mãe — estendeu a mão para o telefone.
— Não — agarrei seu pulso — Agiremos de forma mais inteligente. Vamos comprá-lo.
Criei uma conta falsa, escrevi para o vendedor “Viktor”. Marcamos um encontro uma hora depois no shopping. Viktor explicou que era pessoal, de coração, e que precisava do dinheiro para tratar a coluna doente…
Claro, carregar tal peso de mentiras – a coluna iria quebrar. Chegamos ao shopping. Coloquei chapéu e óculos escuros, sentindo-me uma heroína de filme de espionagem. Ilja estava nervoso, tremia como uma folha ao vento.
— Ol, talvez não precisemos chamar a polícia? Resolva nós mesmos?
— Precisamos, Ilja. Caso contrário, em um mês eles vão colocar teu rim à venda no Avito e dizer que você perdeu sozinho.
Wiacia chegou ao local do encontro. Olhou ao redor, segurando a bolsa contra o peito. Quando nos viu, inicialmente não nos reconheceu (o chapéu funcionou!), mas quando tirei os óculos, seu rosto se alongou de tal forma que o queixo quase tocou o asfalto.