— Linda, não entendo… que expressão é essa no teu rosto? — os convidados já tinham ido embora há muito tempo e a aniversariante, cansada mas satisfeita, colocava os últimos pratos na máquina de lavar loiça quando o marido decidiu, de repente, começar mais uma cena.
E não era a primeira vez no último mês. Era como se alguém tivesse substituído o Serguei: ele procurava sempre motivos para discutir, agarrava-se a detalhes e conseguia, de cada vez, virar a situação de forma a fazer com que Linda parecesse culpada. E depois era sempre ela a dar o primeiro passo para a reconciliação e a pedir desculpa. Mas naquele dia já não estava disposta a aceitar isso.
— E o que exatamente te incomoda na minha cara, Serioja? — perguntou Linda com calma.
— Estou só cansada depois da festa. Se achas que devo andar o tempo todo com um sorriso colado no rosto, então em dois anos de casamento nunca olhaste realmente para mim.
— Não tem importância, como se houvesse algo para ver! — atirou ele com desprezo. Linda ignorou a provocação, mas as palavras seguintes ficaram-lhe bem claras:
— Eu vi como ficaste satisfeita com os outros presentes. Mas o meu, evidentemente, não gostaste. Por isso quis perceber o que correu mal. Escolhi-o, esforcei-me, quis que fosse bom… e fizeste uma careta como se te tivesse dado lixo.
Linda expirou lentamente.
— Não sei o quanto te esforçaste, mas em dois anos de vida juntos podias ter lembrado uma coisa simples: não suporto o cheiro de citrinos.
É o único aroma que não consigo tolerar fisicamente. Tudo o que recebo com esse cheiro dou à minha mãe ou à minha irmã. E aquele conjunto de tinta para o cabelo teria sido muito mais útil para a minha irmã — ela tem quinze anos e já pintou o cabelo três vezes em meio ano.
Eu, aliás, nunca pintei o meu cabelo.

Podias ter reparado nisso também.
— Então estás a dizer diretamente que os meus presentes são uma porcaria?
— Não estou a insinuar, Serioja. Estou a dizer-te diretamente: sim. Bastava abrires a minha lista de desejos. Está no meu perfil há dois meses. E tu segues-me, aliás.
— Eu não tenho tempo para ler listas! Tenho mais que fazer!
E, de qualquer forma, o que importa é o gesto, não o presente. Mesmo que te trouxesse um pau da rua, devias ficar feliz! Linda suspirou profundamente. Nessa noite fez algo inesperado: devolveu a consola de jogos cara que planeava oferecer-lhe no aniversário.
Serguei tinha-se esquecido completamente de que aquele “jogo” se joga a dois.
Se o que conta é o gesto, então no aniversário dele receberia um gel de duche barato.
E então? O importante é a “intenção”.
Só que Serguei não apreciou nada aquele “gesto” e fez um enorme escândalo.
— Foi assim tão difícil escolher algo normal?!
— Estava ocupada! Errei! Acontece a toda a gente!
E tu respondes-me assim?!
— Não grites comigo — disse Linda com repulsa.
— Depois de um presente desses ainda devias ficar feliz por eu não te ter deixado já! — explodiu ele.
— Queres divorciar-te? — perguntou ela imediatamente.
— Sim! Estou farto! Cansaste-me com as tuas queixas!
— Perfeito. Então amanhã entrego o pedido.
Ele ficou congelado.
— Assim, simplesmente?
— E o que é que há de complicado? Assinamos e pronto.
Não temos filhos, não temos bens em comum. Em um mês estamos divorciados.
— Então é assim tão pouco que valorizas o nosso casamento?! — explodiu ele.
— A minha mãe tinha razão… não passaste no teste.
— Que teste? O que é que a minha mãe tem a ver com isto?
— Tudo! Ela disse que tu não me amas de verdade!
Se me amasses, terias tentado resolver, conversar, ir à terapia…
Mas escolheste logo o divórcio!
Linda olhou para ele alguns segundos e respondeu calmamente:
— Sabes que mais? Já não proponho apenas o divórcio.
Amanhã entrego os papéis sozinha.
Com ou sem ti, já não importa.
Foi viver com a mãe, convencida pela primeira vez de que ela tinha razão.
Uma semana depois, Serguei apareceu à porta da mãe de Linda com a própria mãe, tentando provocar um escândalo. Mas Irina, a mãe de Linda, interrompeu-os com calma:
— Já não existe família aqui. E oficialmente também não vai existir.
Depois do divórcio, Linda, com uma chávena de chá na mão, percebeu algo essencial:
— Um homem não se torna filho da mãe por acaso… mas uma mulher não precisa de perder a vida por causa disso.
E sorriu, pela primeira vez, verdadeiramente em paz.