Nunca imaginei que uma única noite pudesse mudar a minha vida para sempre. Não procurava aventuras — só queria chegar a casa e dormir. Mas a vida tem um hábito cruel: atinge-nos quando menos esperamos.
O vento frio assobiava enquanto eu atravessava a velha ponte, quando, de repente, um som estranho cortou o silêncio. Um gemido fraco e trémulo — demasiado débil, demasiado frágil para parecer real. Parei. O coração começou a bater descontroladamente.
Aproximei-me do corrimão e vi uma caixa de metal enferrujada. Debaixo dela, uma pequena criatura estava encolhida. Tinha a pele pálida e nenhum pelo. Quando levantou a cabeça, o meu sangue gelou: no centro do rosto havia um único olho enorme. Sem nariz. Sem boca. Apenas aquele grande olho triste, fixo em mim, como se olhasse diretamente para a minha alma.

Por um instante, o medo paralisou-me. Depois, a compaixão venceu. Enrolei a criatura no meu cachecol e corri para casa. Coloquei-a com cuidado sobre um cobertor. Tremia, e o seu olhar seguia cada movimento meu. Criou-se entre nós uma ligação inexplicável.
Na manhã seguinte, levei-o ao veterinário. Ele observou longamente, suspirou fundo e tirou os óculos.
— É um cachorro ciclope — disse em voz baixa. — Uma anomalia extremamente rara. Não viverá muito tempo. Minutos… talvez horas.
Sugeriu a eutanásia. Recusei. Se tinha de partir, queria que sentisse calor.
Chamei-o de Cyclops. Apertei-o contra o peito e sussurrei palavras sem sentido, só para que não se sentisse sozinho. O tempo arrastou-se de forma cruel. Então, de repente, os tremores cessaram. O olho fechou-se. Cyclops morreu.
Enterrei-o perto da ponte, debaixo de um velho carvalho, enrolado no meu cachecol. Coloquei uma pedra sobre o túmulo e fui embora, convencido de que a história terminava ali.

Estava enganado. Nas semanas seguintes, a ponte mudou. Sempre que passava por ali, sentia que estava a ser observado. Numa noite de neve, voltei ao túmulo. A pedra tinha desaparecido. A terra estava remexida, mas não havia pegadas. Com as mãos a tremer, cavei mais fundo. O cachecol tinha desaparecido. O túmulo estava vazio.
— Isto é impossível… — murmurei.
Nessa mesma noite, voltei à ponte. O vento uivava como um aviso. Então vi: o meu cachecol estava cuidadosamente dobrado sobre o corrimão. Limpo. Intacto.
Quando o peguei, algo caiu dele. Uma pequena etiqueta de plástico — daquelas usadas em laboratórios. Nela estavam escritas três palavras:
“Protótipo Zero — fugiu.”
Senti um arrepio gelado. Protótipo? Alguém procurava o Cyclops. Ele não era um erro da natureza.
Dei um passo atrás quando uma carrinha preta parou silenciosamente na ponte. Três figuras com fatos brancos de proteção saíram, segurando scanners. Uma delas falou com uma voz metálica:
— Detetámos sinais de vida recentes.
Escondi-me e sustive a respiração.
— Se o sujeito criou ligação com alguém, tentará regressar a essa pessoa — disse outro. — Vamos esperar. Ele vai aparecer.
Eles não falavam do Cyclops.
Falavam de mim.
Corri. Não olhei para trás. Agora, semanas depois, ainda sinto aquele olhar sobre mim. Um olhar que nunca se fecha.
E, às vezes, quando a noite fica demasiado silenciosa…
ouço novamente aquele gemido fraco e trémulo.